quarta-feira, 17 de abril de 2013



O horror, o caos, e sobretudo, a raiva. É sobretudo disto que John Tlumacki, fotógrafo do jornal Boston Globe, falou ao descrever os ataques que testemunhou na maratona de Boston, na segunda-feira. No final teve de deixar ficar os seus sapatos: estavam cobertos de sangue.
John Tlumacki cobriu mais de 20 maratonas nos seus 30 anos no Boston Globe. “Estava na linha da meta, cá em baixo. Estava tudo normal. O ambiente era jovial – as pessoas estavam contentes, a aplaudir. E a chegar a um ponto em que "francamente torna-se um bocadinho aborrecido para um fotógrafo”, conta ao blogue Lightbox, dos editores de fotografia da revistaTime. “E então ouvimos a explosão.”
Não foi uma explosão muito forte, apesar de Tlumaki contar que a percussão atirou as suas máquinas para o ar. O que se sentiu foi sobretudo o fumo. “Uma enorme nuvem de fumo e pessoas a gritar.”
“Mesmo à minha frente, um dos maratonistas caiu – com a força da explosão”. O que faz um fotógrafo? Tlumaki não pensou. “O meu instinto foi: és um fotógrafo, é isso que fazes”. Correu em direcção à explosão. Polícias de armas na mão, confusos. Nem eles sabiam o que estava a acontecer. Olhavam para a esquerda e para a direita. Poderiam ter sido apanhados pela explosão. Tlumacki fotografou o maratonista caído, os polícias a olharem em todas as direcções atrás dele.
A primeira coisa que viu quando chegou às barreiras: membros de pessoas arrancados. Uma enorme quantidade de sangue. “E muita raiva. As pessoas estavam mesmo enraivecidas. O que se passa? Porque está isto a acontecer na Maratona de Boston?”.
Cerca de 15 segundos depois da primeira explosão, a segunda. A polícia tentou levar toda a gente para o meio da rua porque podia haver outra bomba na zona lateral. "Foi o caos", disse num video publicado pelo Boston Globe. "Havia corpos por todo o lado, era difícil chegar às vítimas por causa das barreiras. É indescritível, ver pessoas sem pernas, sem pés, a morrer à tua frente."
“Não consigo comparar isto a nada em que tenha alguma vez estado. O horror. E a raiva.”
Tudo isto a acontecer “com todas as bandeiras de todas as nações”. E “um monte de pessoas, pessoas feridas, por debaixo destas bandeiras.”
A trabalhar, como que protegido pela máquina, Tlumacki tentou deixar as emoções à parte. “Tentas não te envolver. Mas havia um homem debruçado sobre uma mulher. Obviamente ela estava ferida com muita gravidade, e ele estava só a tentar confortá-la. Estava a sussurrar-lhe ao ouvido. Do ponto de vista de um fotógrafo, já viste estas imagens. Fiz a foto, e segui em frente”, disse ao Lightbox. No vídeo do Globe, comenta: "Acho que foi a imagem mais comovente."
Um polícia aproximou-se então de Tlumaki. “Faz-me um favor”, disse-lhe, “não explores a situação.” E Tlumaki pensou: “Não posso pensar nisso, tenho de continuar a fazer o que estou a fazer.”
Ficou “tão abalado”, confessa. “Estava sem palavras quando estava lá. Os meus olhos estavam a encher-se de lágrimas atrás da máquina. A outra parte triste foi que tive de tirar os sapatos porque estavam ensopados em sangue de andar no passeio a fotografar.”
Público, 17-4-2013

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